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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A quem interessar, o destino do cineasta


Por Simone Santos

Escrevendo sobre o filme O Baile, de Ettore Scola, esbarrei com o blog de André Barcinski, Uma Confraria de Tolos, no qual ele comentava a decisão deste magnífico diretor em se afastar definitivamente do cinema. A notícia é de setembro de 2011, mas acende um alerta sobre o destino desta “indústria” cinematográfica e o que ela pode oferecer ao público hoje em dia e àqueles que fazem dela um ofício.

Vale a pena conferir:

André Barcinski – Uma Confraria de Tolos

sábado, 7 de janeiro de 2012

Uma brecha para o cinema nacional

Por Simone Santos

Com o fim da temporada dos seriados produzidos pela Rede Globo, a programação desta emissora começou a exibir, pelo menos neste início de ano, o Festival Nacional, que nada mais é que a exibição de filmes nacionais no horário das séries, após a novela das nove horas.

A iniciativa é interessante, visto que na emissora citada poucos são os filmes nacionais exibidos na programação durante o ano. A maioria é de origem estrangeira e, muitas vezes, longe de serem filmes de qualidade. Quantas e quantas vezes não vemos séries como “American Pie 1, 2, 3…”, “Todo mundo em Pânico” e suas variações? A “brecha” é importante, mas não suficiente. Ainda assim, vamos a ela.

O Festival Nacional trouxe às telas pelo menos dois grandes filmes,  Salve Geral e Era uma vez, que tocam em temas semelhantes, mas sob visões completamente diferentes: o crime organizado e a violência urbana. Salve Geral, dirigido por Sergio Rezende, exibido na quarta-feira, conta a história de um jovem que, após sair com o amigo se envolve em um crime e vai preso. Sua mãe, viúva, tenta a todo custo tirá-lo da cadeia, mas se depara com a organização Primeiro Comando da Capital, o PCC, quando esta inicia uma onda de ataques à policiais em São Paulo.

Salve Geral, começa com uma trilha impactante. Esse primeiro contato suga de vez a atenção para um filme que requer somente um fôlego do espectador: a sucessão dos fatos, as “cismas do destino” vão conduzindo os personagens sem que estes tenham tempo de mudar a direção, de optar. São lançados às mais diversas situações, que transformam de maneira irremediável suas vidas. Salve Geral apresenta uma possível “visão do outro lado da história”, para explicar a vida e os fatos que marcaram aquele período da história de São Paulo.

Era Uma vez, do diretor Breno Silveira, exibido na sexta-feira, tem as mesmas linhas atrativas: os personagens são conduzidos por um destino implacável. Eles se deixam levar por suas vontades, suas paixões, mas os contextos que os separa, a classe social, e um ainda maior, a atmosfera de violência urbana que os envolve, se mostram maiores que os anseios de cada um. O filme é uma espécie de Romeu e Julieta brasileiros; as referências trágicas na história nos remetem, indiscutivelmente, à história clássica escrita por Shakespeare.

A vida está por um fio a todo instante. O espectador nunca sabe o que esperar das ações dos personagens. Eles são conduzidos pelo destino, sem ter o controle das próprias vidas. Claras referências às tragédias gregas, não se sabe se de maneira intencional. Dois grandiosos filmes que criticam a sociedade brasileira, especialmente a dos dois grandes centros do país, Rio de Janeiro e São Paulo e suas diferenças sociais. Empolgantes e surpreendentes. Filmes para serem vistos de um fôlego só.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Baile: o encantamento em forma de filme

Por Simone Santos

Luzes apagadas. Passos num salão enorme. Um simpático velhinho vai aos poucos ligando as luzes, a música e vai revelando ao público o surpreendente palco de um filme inesquecível.  Essa é a atmosfera do filme O Baile, de Ettore Scola. Este magnífico cineasta vem de uma escola de cinema das mais importantes e transformadoras, a italiana, e com sensibilidade e graça apresenta através da dança as vicissitudes, as transformações e as tensões da sociedade francesa, de 1936 até meados dos anos 80 do século passado.

Realizado em um único cenário, este filme inova não somente neste aspecto,  também não traz qualquer diálogo verbal, mas a linguagem universal dos sentimentos aquece e empolga qualquer espectador. O Baile traduz as relações humanas em gestos, sensações e expressões, que dão ao espectador a possibilidade de sentir aquele friozinho na barriga de quem tenta tirar alguém para dançar. Como é difícil, não?

O figurino, as sutis mudanças do cenário, os estilos de dança e claro, a aparência dos personagens dão a ideia da passagem do tempo e contam, ao mesmo tempo, um pouco da história da França, através da vivência daquele grupo de pessoas. A vida de cada um, ao longo do tempo foi se modificando, à sorte dos acontecimentos, da troca de poderes, de crises financeiras e políticas.

O Baile mostra-se como um microcosmo da realidade francesa, a evolução do país ao longo dos anos e as principais interferências culturais sofridas naquela sociedade, que tinha nos personagens sem nome, sem história “pessoal”, os representantes daquelas transformações. Eles eram o espelho do povo, de um povo que acredita no amor e nos ideais revolucionários.

O diretor, Ettore Scola
História a parte, O Baile é um adorável convite à diversão, ao riso, à emoção, pois esta não falta em nenhum momento e faz cada um mergulhar na história imaginada para cada personagem, a torcer por sua felicidade, a ver um final feliz. O Baile não se encerra em si mesmo, ele continua, perpetuando as esperanças na memória de quem vai pra casa ao final da festa ouvindo ainda aquela música que tocou no início de tudo.