sábado, 7 de janeiro de 2012

Uma brecha para o cinema nacional

Por Simone Santos

Com o fim da temporada dos seriados produzidos pela Rede Globo, a programação desta emissora começou a exibir, pelo menos neste início de ano, o Festival Nacional, que nada mais é que a exibição de filmes nacionais no horário das séries, após a novela das nove horas.

A iniciativa é interessante, visto que na emissora citada poucos são os filmes nacionais exibidos na programação durante o ano. A maioria é de origem estrangeira e, muitas vezes, longe de serem filmes de qualidade. Quantas e quantas vezes não vemos séries como “American Pie 1, 2, 3…”, “Todo mundo em Pânico” e suas variações? A “brecha” é importante, mas não suficiente. Ainda assim, vamos a ela.

O Festival Nacional trouxe às telas pelo menos dois grandes filmes,  Salve Geral e Era uma vez, que tocam em temas semelhantes, mas sob visões completamente diferentes: o crime organizado e a violência urbana. Salve Geral, dirigido por Sergio Rezende, exibido na quarta-feira, conta a história de um jovem que, após sair com o amigo se envolve em um crime e vai preso. Sua mãe, viúva, tenta a todo custo tirá-lo da cadeia, mas se depara com a organização Primeiro Comando da Capital, o PCC, quando esta inicia uma onda de ataques à policiais em São Paulo.

Salve Geral, começa com uma trilha impactante. Esse primeiro contato suga de vez a atenção para um filme que requer somente um fôlego do espectador: a sucessão dos fatos, as “cismas do destino” vão conduzindo os personagens sem que estes tenham tempo de mudar a direção, de optar. São lançados às mais diversas situações, que transformam de maneira irremediável suas vidas. Salve Geral apresenta uma possível “visão do outro lado da história”, para explicar a vida e os fatos que marcaram aquele período da história de São Paulo.

Era Uma vez, do diretor Breno Silveira, exibido na sexta-feira, tem as mesmas linhas atrativas: os personagens são conduzidos por um destino implacável. Eles se deixam levar por suas vontades, suas paixões, mas os contextos que os separa, a classe social, e um ainda maior, a atmosfera de violência urbana que os envolve, se mostram maiores que os anseios de cada um. O filme é uma espécie de Romeu e Julieta brasileiros; as referências trágicas na história nos remetem, indiscutivelmente, à história clássica escrita por Shakespeare.

A vida está por um fio a todo instante. O espectador nunca sabe o que esperar das ações dos personagens. Eles são conduzidos pelo destino, sem ter o controle das próprias vidas. Claras referências às tragédias gregas, não se sabe se de maneira intencional. Dois grandiosos filmes que criticam a sociedade brasileira, especialmente a dos dois grandes centros do país, Rio de Janeiro e São Paulo e suas diferenças sociais. Empolgantes e surpreendentes. Filmes para serem vistos de um fôlego só.

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